( “Urbanus”)
Hoje estou com vontade de escrever.
Você se lembra meu amor, quando eu tinha essa vontade?
Quando, sem mais aquela, com a caneta na mão, rabiscava as crônicas?
Pois é. Hoje, estou assim. Será que é saudade de produzir alguma coisa, de gravar o pensamento em letras? Ou será, simplesmente, a velhice que está batendo às portas e me faz sentir essa lacuna no meu peito?
É... A velhice... A lacuna...
Velho... Ninguém gosta de velho.
Porque velho é, quase sempre, um “chato”. É aquele indivíduo que quer impor a sua vontade e que não gosta de nada, que se cansa à toa e que tem um sono danado e que sempre cochila frente à televisão...
Mas, o que quase ninguém nota é que, nas águas do lago do olhar do velho, refletem-se os sonhos que não se realizaram, principalmente... Então, o velho, marinheiro experiente, procura controlar o barco de seus pensamentos carregados de saudades, repletos de anseios...
E ninguém vê, porque os olhos do velho estão fechados... A boca, às vezes, aberta... Ele está dormindo...
Não! Ele está sonhando... Está vivendo as quimeras... Está no leme de seu imaginário navio singrando as águas do passado!
Essas águas, por vezes, são calmas. É quando ele pensa no amor... Outras horas, tormentosas, violentas. É quando ele relembra as lutas, as dificuldades de um passado só dele...
A lacuna... É o vazio de seus dias quando ninguém mais quer sua companhia. Quando os seus filhos já foram para outros lares...Quando algum deles já partiu para outra esfera...
Quando os circunstantes riem de suas queixas ou quando nem as escutam....
Hoje, estou com vontade de escrever. Queria dizer dos meus sonhos; das quimeras; das luzes; dos brilhos; das estrelas. Queria dizer da VIDA.
Mas, por quê?
Sou um VELHO!...
(Urbanus)
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E essa foi minha resposta ao meu pai:
(Ao meu pai, timoneiro do tempo, que singra os mares da vida, em seu barco, um barco de papel, chamado amor!... ).
Pai, meu “velho pai”, li e reli sua crônica, por várias vezes, e como o senhor, a caneta também veio à minha mão. Essa pena, em geral tão faladeira, por instantes ficou muda. Um turbilhão de palavras jorrava em minha mente, e ela, ela não podia falar... O que adiantava dizer ao mundo? Ninguém iria acreditar... Dizer que as lembranças são recordações marcadas a ferro e a fogo, em nossos corações, como se marcavam os escravos por toda a vida, tornando-nos escravos de marcas antigas...
São as marcas antigas, “velho pai”, são as paisagens brancas desses rumos incertos, a paisagem quase azul deste infinito derradeiro. São seus barcos, seus barcos de papel, são seus arco-íris, no fim do horizonte, onde estava talvez um sol poente, uma estrela cadente, uma palavra esquecida, uma crônica não escrita...
São as coisas que não definem e que se mostram como realmente são.
São árvores perdidas no fundo do quintal, velhas igrejas da praça, povoando seus sentidos, velhos rios do interior de seu coração, nessa geografia que traz nas palmas das mãos, onde as plantas e as folhas caídas tratam da terra com raízes invisíveis.
Sei de marcas antigas, pai. Sei das suas ilusões, dos seus sonhos. Sei das suas montarias em cavalos bravios e imagináveis, domando-os como um campeão de rodeio. Sei dos seus amigos do passado, sei do mineiro que gosta de festa e catira, mas se curva aos sentimentos da companheira amada...
As marcas antigas “velho pai”, são tempos guardados num bolso de paletó. São coisas que nem sei e nunca saberei...
No entanto, tudo se descobre a cada momento, tudo se faz e refaz, nas ruas e nas praças, nos rostos dos filhos tristes, no aceno quieto do neto que atravessa a rua do mundo, em busca da vida.
Pai, onde está o brilho de sua estrela? Onde está a sua lua cheia, que enchia os antigos céus de primavera? Onde estão pai, seus silêncios da noite? E a sua noite mais profunda, da qual você acorda com o seu gesto mais leve?
Eu ainda sou “moço”, pai, e sei desses dias. Mas não sei compreender as horas de cada instante, pouco sei de mim e nada sei do que me cerca. Ainda sou “moço”, “velho pai”...
Pensei em juntar palavras, talvez de afeto, em momentos de desencantos:
música, ritmo, folhas, raízes, sombras, ruas, alamedas, prédios, janelas, portas, sinos de igrejas, mãos, acenos, planícies, espelhos, buscas, silêncio, solidão, tristezas, um copo de cerveja, o poema inacabado, frases...
Sei juntar pai, palavras talvez de afeto em momentos de desencantos. Mas, não é tudo. São as marcas antigas, pai... As marcas de sempre...
Não é preciso se entristecer, não é preciso desvencilhar-se dos grilhões dos brancos de seus cabelos. Nada é preciso pai, assim é a circunstância dos dias e as novidades da estrela que nasce e apaga. O tempo não existe, viva o seu dia, viva o seu infinito, maior que o próprio infinito. Esse infinito que nunca acaba e que nunca começa... Nem inicio, nem fim... Observe nos seus filhos o sorriso, talvez a lágrima. seja a luz de todas as tardes, nesse farol do navio que atravessa os oceanos de seu próprio descobrimento. Descobrimento de seu o meu querido “velho pai”.
sua benção
seu filho
2004
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